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sábado, 7 de março de 2009

Angel-A

Loquei o filme, em primeiro lugar, por ser francês e, em segundo, por ter como protagonista o simpático ator Jamel Debbouze, que eu conhecia de Amélie Poulan e da série Taxi. Angel-A (2007) tem uma bela fotografia em preto e branco e algumas metáforas interessantes.

André pretendia se matar por causa de uma série de dívidas que não tinha como pagar. No momento em que vai pular de uma ponte, ele conhece Angela, que lá estava com a mesma intenção que ele. Ela pula primeiro e ele salva sua vida. Então ela resolve ficar com ele para ajudá-lo a resolver seus problemas, o que ela faz através de métodos inesperados: obtém o perdão de dívidas ou dinheiro para pagá-las por meio da violência e da prostituição. Tais métodos revelam-se ainda mais surpreendentes quando ela revela ao amigo que ela é um... anjo. "E por que o céu enviaria uma puta de 1m80?" É a pergunta que André faz a Angela. A enviada do céu mostra-se sintonizada com nossa época e consciente de que os fins justificam os meios.

Mas o bom do filme é que os fins não se restringem à solução dos problemas materiais de André. Sem que ele perceba, Angela o guia em uma jornada de auto-descoberta. Angela é o próprio André, ou o que ele gostaria de ser, ou o que ele deveria ser. "Sou uma puta loira de 1m80?" - pergunta ele novamente. O tímido, temeroso e subserviente baixinho tem oculta dentro de si uma determinada e corajosa femme fatale.

Na última cena, André está com Angela diante de um espelho e ela o orienta a declarar amor a si mesmo. Com certa dificuldade, ele o faz. É quando Angela desparece. Mas ele continua dizendo à sua imagem: "eu te amo." Agora ele sabe que Angela vive dentro dele.

domingo, 13 de abril de 2008

Piaf - La Môme


Assisti ontem ao filme que, no Brasil, recebeu o título "Piaf - Um hino ao amor", e cujo título original é "La Môme". O filme que conta a vida da cantora francesa Edith Piaf, uma das maiores ídolas daquele país e mundialmente conhecida. Dona de uma voz imponente e autora de interpretações colossais que se tornaram referência para inúmeros cantores, Piaf teve uma vida conturbadíssima, desde sua infância em extrema pobreza até a morte prematura, acelerada em decorrência do consumo de álcool e drogas.
O filme recebeu o Oscar de melhor atriz nesse ano, e não há como não concordar que Marion Cottilard merecia o prêmio. Piaf parece ter encarnado nela: seu rosto transfigura-se, seu corpo todo transmite a vibração e a visceralidade da cantora, seu rosto hipnotiza nas cenas em que Piaf aparece cantando. O filme conquista, sim, mas , na verdade, quem conquista é Edith: seria muito difícil fazer um filme ruim com uma personagem tão boa interpretada por uma atriz excelente. O filme é Edith, Edith é o filme.
E quem é Edith? Edith é "la môme", a criança, a adolescente, aquela que põe toda sua alma, todo seu corpo em tudo o que faz. É aquela que sente no mais profundo de seu espírito o vazio de sentido da vida para depois descobrir a plenitude na entrega total, no amor desmedido, no abandono de si. Um dos momentos mais tocantes do filme é a cena em que ela sai para jantar com o lutador Marcel, por quem ela se apaixona e com quem vive um romance mesmo ele sendo casado. O olhar apaixonado de Edith/Marion, seu encantamento perante o homem amado é tão doce, tão ingênuo e comovente que, por si só, justifica o nome do filme. Já a cena em que ela fica sabendo que seu amado morreu na queda de um avião é de uma carga emocional tamanha que, diante dela, fico sem ter o que dizer.
Li comentários na internet contando que, em vários lugares do Brasil, as exibições do filme nas salas de cinema eram aplaudidas de pé pelas pessoas. Também li relatos de sessões em que, ao término do filme, os espectadores simplesmente permaneciam sentados, mudos, petrificados diante do impacto da cena final e do filme como um todo. Não estamos mais acostumados a contemplar a verdadeira arte, a arte visceral, a entrega completa, a vida transformada em eternidade. Por isso ficamos paralisados quando, de alguma forma, ela se manifesta a nós.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O poder da narrativa em "O jardim secreto" II

Na transposição feita por Agniezka Holland de “O jardim secreto” ("The secret garden", EUA/Reino Unido, 1993) para o cinema há uma seqüência que capta de forma aguda, através de uma série de signos imagéticos, a metamorfose oriunda de um despertar, de um “abrir os olhos”. Trata-se do primeiro contato de Collin com a luz. Desafiado por Mary, o menino havia aceitado abrir as janelas de seu quarto, que eram tapadas por tábuas de madeira. A seqüência inicia-se por um brevíssimo plano geral do exterior da casa e seu gramado iluminados pelo sol, ao qual se segue a imagem do interior do quarto sombrio, com a luz do exterior entrando pelas frestas entre a tábuas da janela. Subitamente as tábuas que fechavam a janela caem, e vemos Mary de frente para a janela e Collin um pouco mais afastado, em sua cadeira de rodas, cobrindo os olhos com as mãos. Através da janela, vemos Dickon no lado de fora, montado num cavalo branco ao qual as tábuas foram amarradas para serem puxadas e arrancadas. Dickon chama Mary para que ela o ajude, ela empurra a carreira de Collin para perto da janela e sai do quarto. A luz do dia invade o recinto e Collin tapa os olhos com as mãos, como quem está sendo cegado pela luz intensa à qual não está habituado. Ele abre os olhos e fica em pé apoiando-se na cadeira e vê, pela janela, Mary montada no cavalo com Dickon lá fora. Collin chama por ela e ela lhe acena, mas então ele desequilibra-se e cai no chão, onde fica gritando e debatendo-se. Os empregados entram no quarto e o colocam na cama, mas ele continua gritando histericamente. Mary entra no quarto, vai até em frente à cama, sobe num banquinho e grita com ele, mandando-o parar e dizendo que todos o odeiam e que alguém doente não conseguiria gritar daquela forma. Collin diz que tem um caroço nas costas que o deixará corcunda como seu pai, ela sobe na cama, examina-o e diz que não há caroço algum. Em seguida, a governanta entra no quarto, repreende Mary e diz que vai despedir a empregada que a deixou entrar no quarto. Collin grita com ela, proíbe-a de despedir a moça e ordena que ela saia do quarto. No final da seqüência, Collin está deitado na cama e Mary sentada a seu lado. Ele diz que talvez não esteja doente e que gostaria de sair e encontrar o jardim de sua mãe. Mary então lhe conta que já entrou no jardim. Enquanto ela vai descrevendo o jardim para ele, vemos a expressão de Collin, de olhos fechados e sorrindo, à qual sucede um plano geral exterior com uma pradaria muito verde e iluminada e ovelhas correndo, com uma trilha sonora de flauta e coral, além do canto de pássaros.
Vemos, em primeiro lugar, uma passagem das sombras para a luz. O ato de abrir as janelas e deixar a luz entrar demonstra a intenção de ver, de explorar novas possibilidades, de sair da situação de confinamento em que Collin encontrava-se até então. Mas essa passagem não se faz sem dor: num primeiro momento, a luz agride os olhos que nunca conviveram com ela. Além disso, para que uma transformação assim se realize, é necessário abandonar velhos hábitos incompatíveis com a nova postura que se quer assumir. A queda de Collin e seu ataque de histeria demonstram que ele ainda não estava pronto, ainda estava demasiado concentrado em seus temores e carente de ousadia e força. Ao perceber essa sua carência, ele volta ao comportamento que sempre tivera. Somente a intervenção de Mary, lançando luz sobre a real situação do garoto, vai fazê-lo perceber que é possível superar seus limites, pois ela própria já havia percorrido semelhante caminho, amparada por Dickon, o menino plenamente integrado à Natureza. Aqui, Dickon contribui com sua força, puxando as tábuas que cobriam a janela, mas é Mary quem opera a mediação entre o mundo exterior e o universo fechado a que Collin estava preso. E ela coloca escancaradamente diante de Collin a imagem que todos faziam dele. Nesse momento, não por acaso, ela está sobre um banquinho e focalizada em plongé, o que deixa sua estatura muito maior do que é de fato e que a torna enorme diante do menino, focalizado em contra-plongé: ao reconstruir seu imaginário e sua história pessoal, Mary forjou para si uma força que excede em muito seu tamanho aparente. E essa mesma força ela transmite para ele em seguida, levando-o a seguir o mesmo caminho que ela já percorrera. Ao questionar a veracidade de sua doença, o menino começa a destruir a história que lhe haviam narrado sobre ele próprio. Finalmente, ao descrever-lhe o jardim, Mary vai nutrir o imaginário dele com os elementos que permitirão a ele reconstruir sua própria história. Os olhos fechados do menino e sua expressão de deleite ao ouvir a descrição de Mary revelam que as coisas que ele imagina nesse momento serão poderosas o suficiente para conduzi-lo a uma nova postura diante de si mesmo e do mundo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Eu sou esse momento

Nunca tinha ouvido falar do filme "Poder além da vida" ("Peaceful warrior", Victor Salva, Alemanha/EUA, 2006) até alguns dias atrás quando o vi na locadora, simpatizei com sua capa e sinopse e resolvi locar. Nem sabia, ao locá-lo, que era baseado em um livro, "O caminho do guerreiro pacífico", de Dan Millman, ginasta norte-americano que narra sua história de auto-superação após sofrer um acidente que quase acabou com sua carreira. Confesso que, quando o filme iniciou e li na tela: "baseado em fatos reais" e "inspirado no romance tal", meu alarme-preconceito soou. O nome do filme em português já não soava bem; essas duas informações adicionais pioraram: preparei-me para encarar um filme cheio de clichês e pieguice.
Entretanto, ele conseguiu surpreender-me pela qualidade. Não há melodrama, heroísmo banal ou modelos politicamente corretos, embora alguns clichês se façam presentes, como um certo heterossexualismo (inverossímel, em se tratando de ginastas olímpicos...) e puritanismo (que impediu que o ator principal fosse plenamente "aproveitado"...). Mas o grande feito do filme foi conseguir sintetizar - intencionalmente ou não - a essência do pensamento budista nas lições do velho Sócrates, que, ao final do filme, nem sabemos se existe ou se é uma ilusão de Dan. De qualquer forma, o que Dan aprende é que nossa mente desregulada e cheia de desejos e ilusões é a causa de todo sofrimento. Limpar a mente, despi-la de desejos e concentrá-la no momento presente é a chave para a libertação e a superação de qualquer obstáculo. No filme há uma fala que resume bem tudo isso:
"Onde estou?
Eu estou aqui.
Que horas são?
É agora.
Quem sou eu?
Eu sou esse momento."


Parece banal, mas não conheço ainda alguém que viva na prática essa filosofia de vida.