Falido: Declarado em falência; fracassado, arruinado. / Palavra: Vocábulo provido de significação.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Casos malditos II
terça-feira, 14 de abril de 2009
Sons de Planeta 2 - Compartilhando
Muito viajei com, nas a e através das músicas desse álbum. Para o adolescente de 15 anos que eu era, essas músicas abriam portais para mundos desconhecidos. Eram a trilha sonora perfeita para minhas noites de leitura solitária ou de contemplação das estrelas pela janela do meu quarto.
O álbum começa com um canto neo-gregoriano, com sinos misteriosos. Em seguida vêm as 7 cores do arco-íris, com trovão, som de chuva e sintetizadores deliciosos que me transportavam imediatamente para um dia de chuva e sol. Depois vinham as cítaras que me levavam à Índia, sucedidas pelos grilos e sapos que me chamavam ao Pantanal. Surgia então uma canção numa língua que nunca identifiquei e da qual só compreedo uma frase . Depois entrava em uma manhã de domingo que antecipava a levitação embalada por um violão poderoso, sucedido por uma outra língua misteriosa em deliciosa voz e com deliciosos tambores. Logo após, restava a calmaria quase monótona do lago e o grande final que misturava o gregoriano aos os tambores africanos.
Tomei gosto por essa música diferente, que mistura velho e novo e acredita em portais e em outros mundos. Depois a mesma revista lançou a coleção "Planeta Nova Era" que trazia sempre uma coletânea como essa, que compartilho hoje com quem quiser experimentá-la.
Sons de Planeta 2 - O melhor da new age e world music
1. Graduale (Corciolli)
2. The 7 colors of the rainbow (Mannheim Steamroller)
3. Asas da Luz (Luz da Ásia)
4. Noite (Marcus Viana)
5. Tanto quer Santa Maria (Freiburger Spielleyt)
6. Sunday morning breeze (Chip Davis)
7. Levitation (Peter Ratzenbeck)
8. Modé Ani (Fortuna)
9. Lago (Ed Ribeiro Lima & Cia)
10. Agnus Dei (Religare).
Download: Parte 1 e Parte 2
terça-feira, 20 de maio de 2008
As misteriosas influências da Lua - PARTE II
Para ler a primeira parte, veja o post anterior, ou CLIQUE AQUI
Das crendices às constatações científicas: AS MISTERIOSAS INFLUÊNCIAS DA LUA
Vista pela astrologia, a Lua representa a persona, a personalidade que encobre o eu verdadeiro
Em 1942, Cristóvão Colombo partiu da Espanha em sua histórica viagem para a América. Em 11 de outubro, mais ou menos às 10 horas da noite, ele divisou uma misteriosa luz no meio do mar. Pensou que alguém poderia estar enviando sinais, mas como a luz durou pouco mais de um minuto, nunca descobriu sua origem.
Inúmeras pessoas têm tentado explicar essa luminosidade, e algumas das quais chegaram à conclusão de que não passaria de ilusão de ótica, comum aos vigias que, em serviço de prontidão, no escuro e incertos da posição do navio, imaginam estar vendo luzes e brilhos repentinos ou ouvindo sinos e ondas se quebrando na praia.
Uma explicação moderna, mais aceitável, foi dada por um jovem biólogo marinho, o doutor L.R. Crawshay, do Laboratório de Plymouth da Associação Biológica da Grã-Bretanha. Ele estivera nas Bahamas observando os vagalumes na época de procriação, quando grandes bandos de fêmeas atraem os machos com sua luminescência. Quando o acasalamento ocorre, o macho e a fêmea estouram, deixando cair no mar os ovos fertilizados. O incidente luminoso, que atrai milhares de turistas às praias, não duram mais do que alguns instantes e ocorre um pouco antes da terceira fase lunar.
Crawshay, que conhecia a história da misteriosa luz avistada por Colombo, teve a feliz idéia de consultar um antigo almanaque para descobrir em que fase aencontrava-se a Lua no dia 11 de outubro de 1492 e verificou que ela ainda estava na terceira fase. Julgando a descoberta significativa, pois explica a misteriosa luminosidade, escreveu um texto a respeito, publicado pela revista Nature.
Mas não é apenas o ciclo reprodutivo dos vaga-lumes que recebe os influxos da Lua. Como se sabe, constitui crença bem antiga aquela que estabelece um elo especial entre as mulheres e a Lua, e considera que esta exerce influência direta sobre a fertilidade, a gravidez e o nascimento.
Na antiga Babilônia acreditava-se que a Lua era responsável pela fecundação das mulheres que se dedicavam ao seu culto, cujas crianças denominavam-se, por isso, os filhos da Lua. E no antigo Egito acreditava-se que as mulheres concebiam olhando-a.
A crença universal fundamenta-se no ciclo menstrual feminino, tão intrisecamente ligado à Lua que o termo catamênia, usado para designar o fluxo, provém de duas palavras gregas, kata e men, que significam “pela Lua”. Em francês, o ciclo menstrual é conhecido como coimo “le moment de la Lune”, e na Alemanha os camponeses chamam-no simplesmente de “lua”. Na longínqua Nova Zelândia, os maoris referem-se à mesntruação como “mata marama”, ou doença da Lua. Lá, como na velha Babilônia, acredita-se que a Lua é o verdadeiro pai das crianças. A primeira menstruação de uma jovem seria provocada pela sua união, durante o sono, com a Lua, crença aliás também encontrada entre os índios brasileiros da tribo uaupé.
Um famoso cientista compartilhou da opinião dos povos primitivos da Antugüidade: Charles Darwin. Segundo ele, as coincidências entre os ciclos reprodutivos da mulher e dos animais marinhos provam que as espécies evoluíram das criaturas primitivas do mar e que o ciclo feminino de 28 dias “é um vestígio do passado, quando a vida dependia das marés e, portanto, da Lua.”
OS SAUDÁVEIS BEBÊS DA LUA CHEIA
Um fato confirmado por enfermeiras e parteiras é que as maternidades ficam muito manifestadas na época de Lua cheia. Um obstetra de Roanoke, Virgínia (Estados Unidos), decidiu investigar a exatidão dessas informações, consideradas supersticiosas pelos médicos. Examinou, então, o registro dos nascimentos ocorridos numa maternidade moderna e verificou que 66,7% dos bebês haviam nascido durante, logo antes ou imediatamente depois da Lua cheia. A sua hipótese é de que a Lua poderia afetar o líquido amniótico da mesma forma como influencia as marés. Esses dados foram depois corroborados por um cientista, o doutor Walter Menaker, que analisou mais de 500.000 partos ocorridos em Nova York, de janeiro de 1948 a janeiro de 1957, verificando que a maioria deles havia se dado na Lua cheia. Em 1967, esse mesmo cientista repetiu a contagem de partos ocorridos de janeiro de 1961 a dezembro de 1963, confirmando as estatísticas obtidas anteriormente. Esses dados foram publicados no American Journal of Obstetrics and Gynecology. A crença popular recebia assim o aval da ciência.
Os dados que obteve em seus estudos também levaram o doutor Menaker a concluir que as mulheres concebem com mais facilidade na Lua cheia. Na Europa, os que se ocupam dessa área concluíram que as mulheres concebem mais facilmente na fase lunar em que nasceram. Outros vão mais além, dizendo que, segundo a fase em que foram concebidas, é possível predizer o sexo do bebê!
De acordo com a crença popular dos camponeses europeus, a Lua cheia produz os filhos mais sadios, menos sujeitos a doenças, e isso vale até para os animais. Mas, de todas as crendices, uma das mais estranhas é a de uma tribo da África Central, segundo a qual a alma está situada na placenta. Por isso, quando a rainha tem um filho, conserva-se a placenta até a Lua nova, ocasião em que é colocada ao relento para que, ao minguar, a força da Lua se transfira ao reizinho.
Passando do reino animal para o vegetal, veremos que, pelo menos conforme a opinião dos agricultores, as plantas são também influenciadas pelas fases lunares, e numerosas experiências têm sido feitas nesse setor.
Nos Estados Unidos, alguns agricultores obedecem aos antigos costumes europeus se só plantar batatas na fase que chamam de “Lua velha” e repolhos só na Lua nova. Outros descendentes de imigrantes europeus somente lançam as sementes de vagens na terra quando as pontas da Lua estão viradas para cima, acreditando que assim as plantas se agarram às varas com mais facilidade. Também não plantam batatas quando as pontas estão viradas para baixo, pois acreditam que as raízes se afundariam demais na terra se o fizessem. Preferem ainda plantar os cereais no quarto crescente, acreditando que germinam melhor nessa fase. Os índios brasileiros também só plantam e colhem em certas fases da Lua, a “mãe das plantas” entre eles.
Na Europa, a doutora Lily Kolisko, cooperando com o Instituto Biológico de Stuttgart (Alemanha), fez repetidas experiências na plantação de frutas e verduras, concluindo que o milho produz espigas maiores se plantado dois dias antes da Lua cheia, o mesmo ocorrendo com as sementes de alface, repolho liso e crespo. Mostraram um redimento superior ao das sementes plantadas dois dias antes da Lua nova. Todas essas experiências demonstram que os primitivos não se guiavam tanto pela superstição como se imaginava.
LUNÂMBULOS E LUNÁTICOS
Há muito tempo o povoa credita que a Lua exerce uma marcante influência sobre as chuvas. Entretanto, assim como outros cientistas, os “homens do tempo” não concordavam com essa idéia e só se convenceram dela depois que um grupo estudou o registro de 1.544 estações meteorológicas americanas, desde o ano de 1909, verificando como chovera mais nos dias próximos da Lua nova e cheia. Por coincidência, alguns meteorologistas australianos fizeram um estudo idêntico, relacionado ao hemisfério sul, chegando também à conclusão de que chovia mais naqueles períodos. Quando os cientistas do norte e do sul descobriram que haviam obtido a mesma conclusão, concordaram em publicar conjuntamente suas pesquisas na renomada revista Science. O diretor de um observatório na Inglaterra, cujas pesquisas chegaram a resultados semelhantes, foi um pouco mais além ao dizer que elos inexplicáveis parecem ligar as fases lunares não só às chuvas, aos impactos de meteoritos e às tempestades magnéticas, mas também aos distúrbios mentais!
No livro “Moon Madness” (“Loucura Lunar”), E.L. Abel explica que a palavra “lunambulismo” existe desde 1838, quando era voz corrente que algumas pessoas, induzidas pela Lua cheia, saíam de suas camas e caminhavam sobre os telhados. Depois de narrar o caso de determinado paciente, ele diz que há mais verdades do que se supõe nas crendices do povo, que falam da influência magnética da Lua sobre os que dormem, especialmente agora que estão surgindo novos conhecimentos a respeito de raios, de cuja existência ninguém suspeitava antes. Nesse sentido, cumpre citar as experiências que estão sendo feitas pelo doutor L. W. Max para registrar, através de um eletro miógrafo, a reação dos músculos de pessoas que dormem aos raios e ao luar.
Em seu livro “The Lunar Effect” (“As influências da Lua”), o doutor Arnold L. Lieber – psiquiatra com clínica em Miami, que também exerce funções na Escola de Medicina da Universidade de Miami, Flórida – diz que dois aspectos interessaram-no profundamente: a área que abrange os crimes e a da psiquiatria. Os resultados de suas pesquisas são apresentados não só através da narração de fatos mas também, o que é de grande importância para um estudo sério, por meio de estatísticas e gráficos.
Depois de colher todos os dados, Lieber elaborou gráficos que, por si só, provam o que alguns cientistas de outras partes do mundo já aceitam: a violência cresce durante a Lua nova e chega no seu apogeu na Lua cheia. Dois dos gráficos feitos por Lieber são aqui reproduzidos. O gráfico 1 foi elaborado a partir de dados obtidos no Condado de Dade, na Flórida, e cobre o período de 1956 a 1970, com 1.887 ocorrências. O gráfico 2 refere-se ao Condado de Cuyahoga (Ohio), com 2.008 ocorrências entre 1958 e 1970.
Gráfico 1 e Gráfico 2
Há um particular que merece ser observado. O pesquisador usou, na medida do possível, o momento exato em que o crime fora cometido e não a hora em que a vítima morrera, pois o desenlace pode ocorrer logo ou algum tempo após a agressão. Lieber verificou, então, que as agressões violentas eram cometidas dentro de certa periodicidade lunar.
Isso também foi comprovado pelo doutor Edward J. Malmostrom, do Instituto Wright, de Berkeley (EUA), que encontrou estatisticamente uma significativa periodicidade entre os homicídios e suicídios ocorridos no Condado de Alameda, Califórnia, e no de Denver, Colorado, durante os anos de 1956 a 1970. Ele baseou-se igualmente no momento da agressão e não no da morte.
Em cinco estudos feitos em outros pontos dos Estados Unidos, constatou-se, também estatisticamente, um pronunciado aumento de estupros, assaltos, roubos de carros, invasões de domicílios, agressões e tumultos durante a fase da Lua cheia. O nbúmero de admissões em hospitais psiquiátricos também era maior na Lua cheia, havendo ainda comprovação da existência de periodicidade lunar nos casos de agressões auto-infligidas em meio a uma população de pacientes psiquiátricos femininos não hospitalizados. Qual a conclusão dos pesquisadores?
“Existe uma relação entre a agressividade humana e o ciclo sinódico lunar. A agressão pode ser encarada no sentido freudiano, como uma pressão psicológica fundamental, ou pode ser vista como uma função biológica inata, existente em todos os animais, inclusive no homem. Num caso como no outro, pode-se esperar que apresente um padrão periódico, conhecido como ritmo biológico. A evidência indica que existe um ritmo biológico de aproximadamente um mês que se harmoniza com o ciclo lunar” (“The Lunar Effect”).
Que a deusa branca gosta de ser admirada é um fato conhecido. Quando o poeta inglês Robert Graves teve seu livro sobre a Lua rejeitado, o editor que o havia recusado morreu de colapso cardíaco. O segundo, que não só o rejeitou mas ainda escreveu uma carta pouco elogiosa a seu respeito, teve um triste fim: vestiu-se com roupas íntimas femininas e enforcou-se em uma árvore do seu jardim. O editor que o aceitou, porém, não apenas ganhou dinheiro como também a Ordem do Mérito.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
As misteriosas influências da Lua - PARTE I

Matéria publicada na revista Planeta, número 132, de setembro de 1983
Das crendices às constatações científicas: AS MISTERIOSAS INFLUÊNCIAS DA LUA
A Lua, seus ritmos e a influência que exerce sobre tudo o que existe na Terra são mistérios que sempre intrigaram os homens, que não podiam deixar de perceber a melhor germinação das sementes, a maior ocorrência de partos e a inexplicável indocilidade dos animais durante certas fases lunares. A conseqüência natural foi, em princípio, considerá-la uma entidade de origem divina, merecedora de cultos com rituais adequados. Hoje, a ciência retoma as antigas crenças populares que envolvem a deusa de prata, convertendo o que se supunha mera superstição em fatos comprováveis.
Por Elsie Dubugras
A mais antiga prova da existência do culto à Lua, datada de 12.000 anos, encontra-se numa caverna pré-histórica da França, onde existe o desenho de um homem com um par de chifres na cabeça. Hoje sabemos que o par de chifres é o símbolo universal usado para representa-la, possivelmente porque sua forma lembra a das duas pontas da Lua nova. Figuras semelhantes podem ser achadas em pinturas rupestres na Ásia, Egito, Grécia, Inglaterra, África e até nas Américas.
Não devemos esquecer que também a religião hebraica está intimamente associada a esse culto, tanto que um de seus mais importantes festivais – a Páscoa – é celebrado na Lua cheia. Calculado sobre o mês lunar, o ano judaico, com a colocação de mais um mês referente ao ano bissexto, coincide com o nosso, que é solar, a cada 19 anos. Para celebrar o evento, os hebreus, considerados o “povo de Deus”, proibiam o trabalho na Lua nova.
Também os babilônios cultuavam a deusa lunar, a quer deram o nome de Ishtar. Acreditando que ela, como mulher, menstruava em certas épocas, reservaram para esse ciclo a fase em que aparece cheia, durante a qual era proibido trabalhar. Esse era um período considerado calamitoso, e denominaram-no sabattu. Daí se origina o sábado das bruxas e, por fim, o sábado, sétimo dia da semana, dedicado ao descanso do homem e ao culto de Deus.
Com o passar dos séculos as verdadeiras origens de muitos cultos e costumes se perderam, e o que permaneceu acabou sendo enquadrado na categoria de folclore, crendice popular ou superstição infundada. Mas essa classificação arbitrária deixa de ter validade quando os antropólogos começam a se interessar pelo assunto e a pesquisar a procedência de certos hábitos. Isso sem citar as descobertas espetaculares dos arqueólogos e os estudos que estão sendo feitos agora pelos astrônomos, cientistas, médicos, psiquiatras e até pela própria polícia, sem virtude da influência da Lua sobre o comportamento humano.
A MEDICINA CONFIRMANDO AS CRENDICES
Como o desequilíbrio físico e mental sempre acompanhou o homem, é natural que a deusa Lua tenha ocupado um lugar de destaque no tratamento de seus males.
Os curandeiros, que empregavam ervas e raízes para a confecção de garrafadas, só as colhiam em determinadas fases. Mas tanto eles como os médicos não tratavam os doentes apenas com produtos naturais. Praticavam também a sangria, obedecendo ao seguinte esquema: as pessoas “sangüíneas” eram sangradas no primeiro quadrante da Lua, as “coléricas” no segundo, as “fleumáticas” no terceiro e as “melancólicas” no quarto.
Afora os médicos e curandeiros, também os barbeiros começaram, a partir de certa época, a fazer sangrias. Para provar que eram bem-sucedidos, dependuravam na porta da barbearia panos brancos manchados de sangue rubro. Quando mais tarde foram proibidos de faze-las, substituíram os panos por postes pintados de branco e vermelho. Ainda hoje na Inglaterra, o país das tradições, conhecem-se as barbearias pelos postes coloridos colocados em suas portas.
As sangrias estavam intimamente ligadas aos quatro líquidos orgânicos básicos que, segundo os cientistas do século XVIII, faziam parte integrante do corpo humano. Conhecidos como humores, tais líquidos eram classificados como sangue, fleuma, bílis amarelo e bílis negro, cada um dos quais subdivido em quente, frio, seco e úmido. Acreditava-se assim que, do mesmo que exercia influência sobre as marés, a Lua também afetava os movimentos dos humores, tanto que, quando havia um desequilíbrio, dizia-se que a pessoa estava de mau humor e prescrevia-se a sangria. É curioso notar que diversas expressões que ainda hoje estão em uso, como sangue frio ou quente, coração ardente, etc, têm sua origem nos humores dessa época.
Mas os curandeiros do passado não foram os únicos a respeitar as fases lunares. Alguns cirurgiões modernos, constatando que durante as operações que praticavam na Lua cheia os pacientes sangravam mais que em outros períodos, começaram a estudar a velha crença de que ela exerce influência sobre o sangue. Um médico, depois de estudar mais de mil casos, verificou que em 82% deles as hemorragias eram maiores quando a cirurgia fora feita entre o quarto crescente e o minguante, ocorrendo a perda máxima de sangue na Lua cheia.
Qual seria o mecanismo responsável pela maior ou menos perda de sangue? Segundo a teoria de Arnold L. Lieber, este mecanismo relaciona-se às marés biológicas. Diz ele que os vasos e as células sangüíneas têm membranas semipermeáveis, e a água do corpo passa livremente por entre os compartimentos fluidos. Numa situação de maré biológica alta, a dilatação e a tensão dos tecidos fazem com que seja necessário estabelecer um novo equilíbrio entre esses compartimentos. É provável, então, que a água, submetida a uma pressão maior, seja reabsorvida pelo sistema circulatório, o que resulta num maior volume de sangue e, portanto, em maior pressão sangüínea. Os pacientes submetidos a intervenções cirúrgicas durante essa fase teriam, pois, uma maior tendência à hemorragia.
OSTRAS, MOSQUITOS E RATOS
Algumas interessantes experiências foram realizadas por naturalistas e biólogos estudiosos do comportamento dos animais que vivem nas praias e nas partes rasas do mar e que, evidentemente, sofrem a influência das marés. Para descobrir até onde essa influência afetava os caranguejos, as ostras e os caracóis, esses cientistas deslocaram-nos de seu habitat natural para aquários e viveiros adequados a uma grande distância, bem no interior dos Estados Unidos. Aí puderam observam que, mesmo em paragens distantes, esses animais continuavam se comportando como se não tivessem saído da praia, o que os levou a deduzir que, durante sua evolução, haviam desenvolvido um sexto sentido. Este sentido indicaria quando as marés estavam altas ou baixas, quando deveriam emergir da areia para tomar sol ou mergulhar nela para não ser arrastados para águas mais profundas e mesmo quando deveriam se preparar para comer ou mudar de cor.
Depois de cerca de três meses, no entanto, as ostras começaram a mudar de comportamento: em vez de abrirem as conchas na ocasião apropriada, isto é, quando se dava a maré alta no seu torrão natal, atrasaram esse movimento em mais ou menos três horas. Os biólogos não podiam entender o que estava ocorrendo, pois as condições do laboratório permaneciam inalteradas. Um deles lembrou-se de olhar o calendário e verificou, surpreso, que as ostras abriam e fechavam as conchas de acordo com a posição da Lua na cidade onde se encontrava o laboratório. Em outras palavras, se lá no centro dos Estados Unidos houvesse mar, aquele seria o período da maré alta.
Quando os cientistas fizeram experiências semelhantes com caranguejos e camarões, observaram que estes comportavam-se de maneira idêntica, provando que a Lua exerce influência sobre a vida animal, mesmo que não seja visível. Essa observação é lógica, visto que de dentro do laboratório os animais ficavam resguardados de qualquer claridade, e mesmo assim a influência da Lua se fazia sentir presente lá...
Os entomologistas, por sua vez, fizeram experimentos com mosquitos, conseguindo capturar centenas deles quando a Lua estava no minguante, mas bem menos quando cheia. Conclui-se daí que deveríamos estudar as fases lunares, senão por outros motivos, pelo menos entes de planejar um piquenique.
Em experiências com pequenos roedores, o biólogo encarregado do controle percebeu que eles mostravam um sensível aumento de atividade durante duas fases da Lua: a cheia e a nova. Mas, além disso, anotou outro pormenor: os roedores chegavam ao máximo de sua atividade sempre no mesmo dia de detreminado ciclo lunar. Isto comprova que também os mamíferos estão sujeitos à influência cíclica.
"A influência da Lua sobre a cabeça das mulheres": gravura francesa do séc. XVII sobre folcóricos poderes lunares
quinta-feira, 13 de março de 2008
Quem foi Caim?

Caim mata Abel, na visão do pintor italiano Tintoretto
quinta-feira, 6 de março de 2008
Os Rastas
Para muitos, o falecido imperador etíope Hailé Selassié foi apenas mais um curioso exemplar entre os governantes que assolam os paises do Terceiro Mundo. Outros, porém, viram nele o messias, e em sua terra, a origem do cristianismo: são os rastas, da Jamaica, adeptos de uma singularíssima religião que se tornou internacionalmente conhecida a partir das músicas de nomes como Bob Marley.
Por Otávio Rodrigues
Negros. Enormes tranças em desalinho, escorrendo pelo corpo ou sob toucas de lã colorida. Na mão, provavelmente, um grosso cigarro de marijuana, e no prato, frutas, hortaliças e raízes. Os gestos são vagarosos, o olhar é sereno e o bom humor, uma constante. Cultuam a imagem do ex-imperador etíope Hailé Selassié, “o messias”. Clamam pela volta à África, de onde seus ancestrais foram cruelmente arrancados durante o período escravagista. A Bíblia, leitura diária, ilustra os cânticos ao lado de críticas ao sistema, “a Babilônia”, numa inebriante cadência dos tambores. Embora extremamente avessos a qualquer tipo de opressão e, por vezes, agressivos nessa situação, mantêm-se generosos e receptivos a todos indistintamente. Crêem na vitória do bem sobre o mal e na vida eterna, pregando e praticando a máxima “paz e amor”. Cenário: Jamaica; cores: vermelho, amarelo e verde. São os rastas. (1)
O movimento (2) rastafari surgiu com a coroação de Hailé Selassié, em 1930. Através da música popular jamaicana, o reggae, ganhou notoriedade internacional na década de 70 e arrebanhou seguidores em todo o mundo. Aquilo que outrora era “a vergonha da Jamaica” – indivíduos de “péssima aparência”, hábitos “criminosos” – tornou-se repentinamente um atrativo para visitantes, que fazem do turismo a segunda maior fonte de renda do país. Isso, no entanto, não os poupa dos constantes problemas com a polícia, que os toma por vadios e drogados. O certo é que o rastafari possui elementos de grande interesse. Não obstante o etnocentrismo de alguns observadores, que os tacham de loucos e alienados, os rastas conquistaram uma identidade, dentro e fora da Jamaica. Seus anseios extrapolam a esfera espiritual e ganham, paulatinamente, força social e política.
É corrente a afirmativa de que o sistema escravagista implantado na Jamaica foi um dos mais cruéis em todos os tempos. Os primeiros escravos chegaram à ilha em 1509; eram primordialmente trazidos para o trabalho nas plantações de cana-de-açúcar, que sustentaram a economia européia nos séculos XVII e XVIII. Capturados na costa da Guiné, Congo, Angola e Sudão, pertenciam a grupos tribais importantes, como os coromantees, achantis, mandingas, fantis, dagombas, mamprusis e talenses. Isolados entre si na África, sem intercâmbios, fundiram suas tradições e culturas no Caribe, descobrindo-se como um só povo, partilhando dos mesmos sofrimentos. (3) Os coromantees possuíam tradição guerreira, que os fazia rebeldes e violentos; foram a espinha dorsal dos maroons, escravos fugitivos e de atribuições míticas, que se concentraram no interior da ilha, onde estão até hoje. Arredios, não se misturam à civilização jamaicana. Garantidos por lei, seus territórios preservam as tradições tribais africanas de seus primeiros. É cabível afirmar que os núcleos maroons são uma espécie de quilombos que deram certo. Oliver Cromwell, a serviço da Coroa Britânica, conquistou a ilha em 1655. Suas incursões ao Caribe garantiram à Inglaterra o domínio de importantes colônias até então sob jugo espanhol.
O imperador etíope Hailé Selassié, "Senhor dos senhores, Rei dos reis!
Os homens de coração negro
A Jamaica é um caso singular no que diz respeito à tradição e folclore. Ao contrário de outros sistemas escravagistas, os negros não eram forçados a adotar a cultura européia. Os ingleses possuíam objetivos unicamente mercantilistas, não se importando com qualquer tipo de catequese ou ensinamento. Os escravos, por sua vez, erigiram uma cultura toda própria, fruto da miscigenação tribal a que foram submetidos. Os trabalhos nos campos eram ritmados com canções africanas, do tipo chamada-resposta, que, segundo os ingleses, aumentavam a produtividade.
As primeiras práticas religiosas foram o myalism e o obeah, ambos herança africana, misturando exarcebado culto aos mortos, voduísmo e curandeirismo. Outras expressões foram a kumina e o junkunnu, que vingaram até hoje. A primeira, tida como um dos mais antigos cultos afro-caribenhos, está bastante ligada ao myialism. Suas funções incluem a possessão espiritual, o bater frenético de palmas e o ritmo dos tambores. O junkunnu é a mais tradicional festividade jamaicana, com muita dança, música, teatralização e paródia.
Arraigados em suas tradições e ritmos, os negros jamaicanos atravessaram quase três séculos imunes à cultura e religião brancas. Um lei de 1774, entretanto, levou várias práticas de seu folclore à condição underground. Os patrões conscientizavam-se do perigo em permitir vários escravos unidos, em comunicação constante. Era o fim de um ciclo.
Com o confinamento das práticas religiosas de descendência estritamente africana, criou-se um vazio espiritual na Jamaica. As cerimônias da igreja tradicional eram frias, nada diziam aos escravos. Em 1784, Geoge Liele, afro-americano e ex-escravo, fundou a Igreja Batista na Jamaica. Gradativamente, atraídos pelo discurso acessível dos novos sacerdotes, os negros tomaram contato com a Bíblia. Mais: descobriram diversas similaridades entre a história dos judeus bíblicos e a deles própria; a mesma condição de expatriados, as mesmas desigualdades, a espera do retorno à pátria, um salvador iminente e assim por diante.
Etiópia: a origem da civilização cristã
George Liele já possuía algum conhecimento sobre o etiopianismo, teoria embasada na Bíblia que diz serem a Etiópia e a raça negra a protocélula da civilização cristã. As diversas traduções disponíveis da Bíblia e as muitas interpretações a que se permitem tornam a questão um poço de dúvidas. A cada conquista árabe ou européia na antiga África mudavam-se os nomes dos territórios. Assim, as origens da civilização etíope confundem-se no passado com a de Kush ou Méroe, Núbia e até do Egito. Segundo os gregos, o antigo Egito era habitado pelas mesmas tribos da antiga Etiópia, indivíduos de pele negra e cabelos como lã (4).
A Igreja Batista tornou-se um canal de reclamos para os escravos. Os pastores batistas exortavam os negros à resistência e foram os primeiros a clamar em favor da descolonização e citar a frase, hoje enciclopédica, “África para os africanos”. O sincretismo entre as imagens e valores bíblicos e afro-jamaicanos foi uma conseqüência lógica nesse processo.
Mesmo após a abolição da escravatura, em 1838, a insatisfação na ilha era generalizada. O apego à fé e às lideranças político-religiosas foi responsável por uma série de rebeliões. O sincretismo catalizou-se em 1860 com o revivalismo, quando a religiosidade e o espiritualismo foram levados a extremos, num episódio sem precedentes na história da Jamaica.
No começo deste século, amparados num movimento nacionalista, alguns pregadores lançaram mão de sua influência e retórica para mesclar elementos bíblicos e da teoria etiopanista com reivindicações de cunho social e político. O mais destacado de todos eles era o jovem Marcus Mosiah Garvey. Após liderar movimentos grevistas e revelar um enorme poder de comunicação junto às massas, garvey fundou a UNIA – Universal Negro Improvement Association (Associação Universal para o progresso Negro) – uma das primeiras tentativas de peso realizadas para a garantia dos direitos dos negros no mundo ocidental. Para que se tenha uma idéia, somente entre 1914 (data da sua instauração) e 1920, a UNIA chegou a agregar quase seis milhões de membros, espalhados por todo o mundo.
Ascensão de Selassié
Em 1916, Marcus Garvey viajou para os Estados Unidos com o propósito de apresentar propósitos educacionais para Washington. Terminou instalando-se nesse país e, sempre estimulando o retorno dos negros à África, fundou a Black Star Line (Companhia Estrela Negra) de navegação para garantir o comércio do novo mundo negro e simbolizar a repatriação. Durante os anos 20, ganhou tal eminência junto às comunidades negras dos EUA que o governo daquele país, acuado pelas constantes insinuações do jornal da UNIA, Negro World, expulsou-o em 1928.
“Olhem para a África. Quando um rei negro for coroado, a redenção estará próxima.” A afirmação de Garvey em seu retorno à Jamaica foi tomada como uma profecia. A vinda do messias haveria de pôr fim aos sofrimentos e amarguras daquele povo, crente de ser a extensão (in)fausta dos judeus das escrituras. Em 1930, Ras Tafari Makonnen foi coroado imperador da Etiópia. Adotou o nome de Hailé Selassié I e adicionou os títulos de Rei dos reis, Senhor dos senhores, Leão Conquistador e Tribo de Judá, Eleito de Deus e Luz do Mundo. Seguidores de Garvey acorreram à Bíblia e, entre outras passagens, encontraram em Apocalipse 19, 16: “Sobre o manto e sobre a coxa está escrito seu nome – Rei dos reis, Senhor dos senhores”, e Apocalipse 5,5: “Mas um dos anciãos me disse: Não chore, eis que o Leão da Tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os sete selos”, que descreviam o messias em seu retorno. Para alguns pesquisadores, Selassié era o 225º representante da linha salomônica, advinda da controversa união do rei Salomão com a rainha de Sabá. A analogia, pois, foi rápida e contundente: Hailé Selassié é o messias. Os acontecimentos históricos que se sucederam na Etiópia passaram a ser relacionados com as escrituras, consolidando a suposta divindade do imperador. A invasão do país pelas tropas de Mussolini e a heróica resistência do povo etíope comandado por Selassié, por exemplo, encontram-se registradas em Apocalipse 19, 19: “Vi a besta e os reis da terra com os exércitos reunidos para fazerem guerra àquele que montava o cavalo e a seu exército”. A trágica epopéia dos negros jamaicanos, os sentimentos nacionalistas, o etiopanismo, o sincretismo afro-bíblico, os clamores pela volta à África ganhavam, enfim, um direcionamento, um objeto de adoração e esperança. O nome batismal do imperador, Ras Tafari, rotulou a fé que lhe era dedicada. O movimento explodiu. Durante uma conturbada visita à Jamaica em 1966, Hailé Selassié negou ser o salvador (Jah, para os rastas), mas não foi ouvido.
O rastafari foi inescrupulosamente manipulado por falsos líderes ao longo dos anos 30, 40 e 50. os projetos econômicos e educacionais instituídos por Marcus Garvey na década de 20 soçobraram juntamente com os navios imprestáveis comprados de armadores brancos a preços de mercado negro (5). O profeta, aliás, morreu miseravelmente em Londres, no ano de 1940. As aziagas situações em que se viram atirados os rastas, a violência insuflada por interesses pessoais de alguns e a inadvertida relação com os rude boys (6) na década de 60, ao contrário do que seria presumível, fortaleceram os ideais legitimamente rastas, outorgando aos seguidores contemporâneos uma doutrina mais realista e urbana, sem abrir mão de seus preceitos dogmáticos.
Os caminhos da redenção
Os rastas somam hoje 10% da população jamaicana, estimada em 2,5 milhões de habitantes. Malgrado a morte de Selassié, em 1975, adoram-no ainda, como um ente de vida perene. Estão espalhados em todo o país, invariavelmente em guetos onde grassam a miséria e práticas de subsistência. Afora algumas facções misantropas, integram-se à sociedade como músicos, soldadores, motoristas, pescadores, artesãos e agricultores. As crianças, com raríssimas exceções, não vão à escola, “centros de lavagem cerebral e maus ensinamentos”. Seja por hábitos, palavras ou aparência, os rastas são facilmente identificáveis.
O rastafari é pró-Cristo e anti-papa. Reconhece a Igreja Católica Romana, mas vê no papa a personificação do Satanás, por liderar aqueles que fazem das verdades da Bíblia recurso de dominação de seus seguidores. O totalitarismo das grandes potências e as muitas formas de exploração do homem são, para os rastas, garantidos pela Igreja e seus falsos pregadores; a destruição disso tudo está próxima, e somente os que seguem os ensinamentos da Bíblia, os justos dos justos, serão poupados. A Bíblia, pois, é companheira inseparável dos rastas. Guiando e iluminando os caminhos que hão de leva-los à redenção.
A linguagem rasta possui particularidades que vão desde a descaracterização do inglês, a língua oficial jamaicana, até o encampamento de termos do amárico etíope e de origem crioula. A sabedoria discursiva resume-se no conceito de word (razão), sound (fala) e power (coração). Aos não iniciados, o patoá é incompreensível. A palavra I (literalmente, “eu”) concentra inúmeros predicados de interação divina e, conseqüentemente, desmedidas utilizações. Tudo que converge no sagrado inicia-se com I. Daí termos Itation para meditation (meditação), Ivine para divine (divino) e assim por diante. Nos lábios dos rastas o inglês transforma-se. Brother, cuja pronúncia aproximada é “broder”, soa “broda”, e até o famigerado “th” de the, thing ou them, de inexorável dificuldade para a pronúncia latina, simplifica-se no som cru e direto do “t” ou “d”, criando “ting” para “thing”, “dem” para “them”, etc.
Os costumes dos rastas
Os hábitos alimentares dos rastas são basicamente vegetarianos. A justificativa, como sempre, é bíblica: “ e a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todos os seres vivos que rastejam sobre a terra, eu lhes dou os vegetais por alimento” (Gênesis 1, 30).
Abominando, além da carne, alimentos como ovo, queijo, pães, e massas de farinha branca, os rastas mantêm-se com uma variada gama de frutas e hortaliças encontradas na Jamaica. Arroz, feijão, ervilha, mandioca, coco, banana, mamão, abacaxi, laranja, ackee (a fruta típica da ilha), pimenta, batata e uma infinidade de sucos e extratos compõem a mesa do rasta no dia-a-dia. A bebida alcoólica é evitada, bem como os refrigerantes e enlatados de qualquer tipo. Plantar o que come, quando possível, é o ideal.
A alimentação rasta é comumente chamada Ital, termo oriundo de natural e vital. Na urbana Kingston, por exemplo, onde as dificuldades em se encontrar a comida Ital se pronunciam, existem restaurantes especializados em prepará-la, normalmente dirigidos por rastas. Os preços são acessíveis e acabam atraindo todos aqueles que precisam se alimentar bem sem gastar muito.
A Bíblia diz, em Números 6,5: “Enquanto durar o voto de nazireado a navalha não passará sobre a cabeça; estará consagrado enquanto não se completarem os dias que consagrou ao Senhor, e deixará crescer livremente o cabelo”. Por isso, a grande maioria dos rastas jamais corta o cabelo e a barba, que se tornam, ainda, “antenas” de vibrações divinas.
As dreadlocks (literalmente, “tranças horrendas”) surgiram por volta de 1935, inspiradas em fotos de guerreiros massais e somalis da África Oriental. A idéia corrente de que sejam sujas, nunca lavadas, não é verdadeira. Uma espécie de touca de lã, a tam, guarnece a dreadlocks do sol e do vento e é, quase sempre, tecida nas cores etíopes: vermelha, amarela e verde. Se nas ruas de Kingston um rasta for insistentemente fitado por um turista curioso, certamente arrancará de um só golpe a tam, expondo as dreadlocks num ato de afirmação de sua negritude e crença.
Os próprios rastas costumam recitar: “nem todos os rastas usam dreadlocks, nem todos que usam são rastas”. Sem dúvida, a popularização do uso das dreadlocks, na Jamaica e no mundo, deu margem às más interpretações sobre os rastas, num processo errôneo de correlacionamento. Mais importante que as dreadlocks, afirmam, é ser rasta no coração.
De todos os hábitos rastas, o mais problemático, o mais suscetível a implicações sociais e até legais é o consumo da marijuana, conhecida popularmente como ganja (7), a erva sagrada. Fumar ganja é um sacramento, comparável à hóstia ou ao incenso na Igreja cristã. Em Gênesis 1, 29, encontra-se: “Deus disse: Eis que vos dou toda a erva de semente , que existe sobre toda a face da terra, e toda a árvore que produz fruto com semente, para vos servir de alimento.”, o que para eles é a aclamação suprema do ato. Sob o efeito entorpecente da ganja, os rastas dizem manter íntima relação com divindades, unidade com o mundo e raciocínio lógico. É indispensável durante meditações, cânticos e orações. Na forma de chá, é utilizada para relaxar crianças pequenas que choram muito ou se mostram tensas. Inúmeros pratos da cozinhas fazem uso da erva, também usada contra males do corpo, como infecções, febres e dores de cabeça.
Não se sabe quando a marijuana chegou à ilha ou até se já existia antes do descobrimento, mas é certo que ela se encontra na ilegalidade desde 1913. Os problemas com a polícia foram sempre marcantes, mas, atualmente, existe uma relativa conivência para com o porte e consumo em pequenas quantidades. Ainda assim, flagrar um rasta com a erva é sempre um bom motivo para os policiais lhe cobrirem de cusparadas e impropérios (8). O rastafari encontra-se intrinsecamente relacionado com a música. Em Salmos 18, 50 lê-se: “Por isso, Senhor, te darei graças entre as nações, entoando hinos a teu nome”.
Através dos anos e das progressivas evoluções dos ritmos jamaicanos, a mensagem rasta foi cantada na lida diária, nas praias, mas clareiras escondidas das Montanhas Azuis (no interior da ilha), nas favelas e palcos mambembes. A música é hoje o mais importante veículo de pregação rastafari e reivindicações sociais. Basta citar o reggae, mundialmente conhecido, para se ter uma idéia do casamento entre ritmo, melodia e doutrina fomentados pelos rastas. A base de tudo são os tambores burru, tradição rítmica africana difundida nos tempos da escravidão e adotada pelos rastas como nyahbinghi drums.
Os rastas reúnem-se constantemente para cantar, para louvar Jah, com tambores e ganja na mão. O ritual é conhecido como grounation e ilustra todas as datas importantes do calendário rasta. Dificilmente a presença de um estranho é tolerada nessas ocasiões, tal a importância e mística que lhe são atribuídas.
O rastafari conquistou espaços na sociedade jamaicana inimagináveis há alguns anos. Embora muitos recusem-se a votar, nenhuma campanha política prescinde da inclusão de seus problemas, tal é a força do movimento junto à opinião pública do país. Está gravada na história da Jamaica a imagem do primeiro-ministro branco, Edward Seaga, unificando os brados de “Jah, rastafari!”, durante os funerais de Bob Marley, um rasta que levou, através de sua música, a realidade jamaicana às primeiras páginas dos jornais em todo o mundo.
É inegável que algumas aspirações rastas, como a volta à África, constituem hoje apenas simbologia doutrinária. O apartheid na África do Sul, a conturbada situação política no Zimbabwe e a fome na Etiópia são, para eles, exemplos da espoliação exercida no continente pela Babilônia. Além de impraticável, o êxodo seria insensato, crêem.
Aninhados sob o sol enérgico da Jamaica, esperam tranqüilos a chegada do Apocalipse. Têm certeza de que sobreviverão. Seu canto mavioso e as palavras de sabedoria, como na lenda milenar do rouxinol, mantêm vivo o imperador e distantes os fantasmas das más ações que cometeu.

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terça-feira, 4 de março de 2008
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