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segunda-feira, 1 de junho de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Jesus usaria Botox?

Quem assiste à TV Globo pela antena parabólica certamente já viu (e provavelmente se irritou com) as freqüentissíssimas propagandas da coleção de CDs do "maravilhoso, poético e encantador Padre Fábio de Melo". A Veja dessa semana traz uma matéria sobre ele e outros "artistas" religiosos (é só clicar AQUI para lê-la). Matéria que, sem querer, explica muita coisa: o tal padre é o novo grande produto da indústria fonográfica brasileira. Um "artista" cuidadosamente construído, planejado e embalado para presente. Exatamente como aquela outra cantora, a Claudia Leitte.
Dentro da matéria da revista há uma indagação de um "estudioso" - estudioso de quê? a revista não diz... - muitíssimo interessante:
Um padre com imagem sexualizada é algo espantoso. O que virá a seguir?
Mas para mim há algo ainda mais espantoso: é o tipo de "imagem sexualizada" que esse padre representa. Não se trata de uma sexualidade transgressora, de rebeldia contra normas hierárquicas ou quebra de tabus. Pelo contrário. É uma imagem que canoniza os símbolos da superficialidade contemporânea, da sedução que tem como recursos os artefatos só proporcionados pelo dinheiro, sejam as picadas de Botox, o relógio Diesel (eu nem sabia que tal marca existia, pra mim Diesel era só nome de combustível até ler a matéria), ou as roupas de grife. Em suma, uma sexualidade que se baseia no fetiche da ostentação, logo, lucrativa e em plena consonância com o sistema.
Diz a Veja que o reverendo é mestre em antropologia teológica. Fiquei curioso para ler algum de seus livros e descobrir que tipo de discurso ele utiliza para compatibilizar sua imagem com a imagem nada glamurosa apresentada pelo Jesus dos evangelhos, aquele profeta errante, maltrapilho, declaradamente pobre e de fala por vezes agressiva.
Fica a irresistível pergunta:
Se Jesus vivesse atualmente, ele usaria Botox?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Uma aventura entre o sagrado e o profano

Aqui em Pelotas, acontece todos os anos durante o mês de outubro a Romaria de Nossa Senhora de Guadalupe. Um santuário dedicado à santa foi construído no Distrito de Cascata, distante 25 quilômetros da cidade, e para lá se dirigem milhares de romeiros na data da festa. O detalhe é que, entre esses milhares, algumas centenas vão para lá a pé e durante a noite. Na noite anterior à festa, uma grande caravana a pé parte à meia-noite da igreja Santa Teresinha, atravessa os mais de vinte quilômetros de estrada de chão e chega ao santuário ao amanhecer.
Esse ano a romaria aconteceu no fim-de-semana retrasado e, entre as centenas de romeiros pedestres, estávamos eu e um amigo meu. Eu havia lido na internet alguma coisa sobre a tal peregrinação, e o texto dizia que muitos jovens não ligados à igreja também participavam da caminhada, por seu espírito aventureiro. Foi o que nos atraiu e foi exatamente o que constatamos. Grande parte dos participantes praticamente ignorava o caráter religioso da caminhada. Estavam mesmo era participando de uma aventura, uma balada itinerante ou um simples teste aos limites das próprias pernas. E que teste! Quando parecia que já havíamos extrapolado os confins do universo, ainda havia estrada pela frente!


O santuário, que fica em uma grande área verde

Foi uma experiência diferente, mas que não pretendemos repetir, por vários motivos. A exaustão a que se é submetido é o primeiro deles. Exaustão que impede, por exemplo, que se aproveitem as festividades do dia no santuário. Estávamos tão cansados que, pouco depois de chegar ao destino (local lindíssimo, diga-se de passagem), tomamos um ônibus e voltamos para casa. Além disso, por ser durante a noite, não se vê quase nada ao longo do caminho, que atravessa diversas localidades rurais de Pelotas, com suas paisagens certamente encantadoras, mas que permanecem desconhecidas por causa da escuridão. O que vimos no que restava de estrada após o amanhecer nos provou isso: quando a luz surgiu, nos vimos em um lugar belíssimo. Ficamos, então, imaginando que lindos lugares havíamos visitado, literalmente, às cegas...

A paisagem bucólica que se revelou quando amanheceu

Conclusão: para o ano que vem já temos planos, caso estejamos em Pelotas no dia da romaria. Planos que não incluem a jornada a pé! Ou iremos de ônibus na noite anterior e passaremos a noite no santuário (como várias pessoas fizeram, acampando por lá), ou iremos apenas para aproveitar as festividades. De qualquer forma, foi curioso estar durante uma noite em um ambiente no qual conviviam harmonicamente pessoas com uma atitude impregnada de sagrado - com seus cânticos, orações e intenções espirituais - e outras cuja atitude era totalmente profana, o que ficava evidente nas conversas, nas músicas cantadas ao violão e até nas bebidas alcoólicas levadas por alguns... Não presenciei brigas, discussões nem reprimendas por parte de nenhum dos grupos quanto ao comportamento do outro. Todos eram peregrinos - da diversão ou da Virgem de Guadalupe - mas peregrinos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Festas de outubro


Quando eu estava no "seio do catolicismo", eu gostava de outubro porque esse é um mês cheio de comemorações marcantes na Igreja. Começa com Santa Teresinha, aí vem o Dia dos Santos Anjos da Guarda no dia 2, São Francisco de Assis no dia 4, Nossa Senhora Aparecida no dia 12, Santa Teresa de Ávila no dia 15 e Santa Edwiges no dia 16.

Fora isso, é o mês de meu aniversário, do aniversário de um de meus irmãos e também do aniversário da minha mãe.

Para os pagãos do hemisfério norte, outubro é o último mês do ano, sendo que o "Dia das Bruxas", o Hallowen, tem sua origem justamente aí, no Samhain, a comemoração do novo ano pagão. No sul celebra-se Beltane, a grande festa da fertilidade.

De todas as formas, o mês 10 quer ser especial.



Custei a lembrar do nome do pintor de tantas telas com temática religiosa nas quais os anjos estão sempre presentes. O google ajudou-me: é Fra Angélico. O anjinho aí em cima é dele. (É até doloroso ver a parte em que a tinta saiu e a madeira ficou aparecendo. Parece uma ferida exposta, não?)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

História de uma alma

Hoje, quando acordei, lembrei: 1º de outubro, dia de Santa Teresinha. Nessa data a Igreja celebra a memória de Teresa de Lisieux, essa francesa que viveu no final do século XIX e que se tornou uma santa imensamente popular. Mais que isso: tendo vivido apenas 24 anos e sendo mulher, realizou a façanha de ser proclamada doutora da Igreja, título concedido àqueles considerados como autores de uma doutrina espiritual exemplar. Além dela, apenas duas outras mulheres receberam tal título até hoje: Catarina de Sena e Teresa de Ávila.


"História de uma alma" é o nome que receberam os manuscritos autobiográficos de Teresinha. Sim, ela escreveu uma autobiografia por orientação de suas superioras, no mosteiro carmelita em que passou os últimos anos de sua breve vida. Li o livro pela primeira vez quando tinha 16 anos e, até hoje, lembro dos fortes sentimentos que ele me transmitiu. Teresinha conta detalhadamente sua vida, desde a mais tenra infância, com destaque para a perda da mãe quando tinha apena 4 anos, a relação com o pai e com as irmãs, a viagem a Roma, durante a qual solicitou ao papa que pudesse ingressar na Ordem Carmelita com apenas 15 anos. O livro transborda emoções exacerbadas a cada página, recordações dolorosíssimas, sentimentos elevadíssimos por seus familiares, interpretações sentimentais de cada situação vivida. Só hoje dei-me conta de que Teresinha bem pode ser enquadrada dentro do Romantismo, e é exatamente isso que ela é: uma alma romântica (não por acaso, ela também escrevia poesia...). Será que alguém já escreveu uma tese sobre isso?


A doutrina espiritual de Teresinha chama-se "a pequena via" e, basicamente, consiste em um retorno à simplicidade como meio de ter uma vida espiritual. Ela propõe que a "santidade" seja conquistada através da vida cotidiana, nas atitudes corriqueiras e pequenas, praticadas com amor. O que também não se distancia da visão romântica (e burguesa) da vida.


Hoje Teresinha é pop. Tornou-se a santa das rosas: diz-se que quem faz sua novena sempre recebe, inesperadamente, uma rosa dentro do período de 24 dias em que ela é realizada. A imagem da santa jovem carregando um crucifixo envolto em rosas tem um apelo que atinge desde as crianças até os idosos. Exatamente por isso, vem sendo amplamente utilizada pela Igreja em suas "campanhas publicitárias" desde o início do século XX, tendo sido uma das estrelas do papado João Paulo II, que a proclamou doutora em 1997, quando do 100º aniversário de sua morte. Continuo simpatizando com ela, mas não sei que efeito teria sobre mim uma nova leitura de seus escritos. Talvez eu tenha me tornado demasiado crítico para apreciá-los.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

16 de agosto: Dia de Santa Madonna

(Ler ao som de Love Profusion

)


Ela é incontornável e incomparável. A Deusa de mil faces faz hoje 50 anos, mas na verdade ela nasceu 10 mil atrás.

Quem é Madonna? Há que se inventar uma teologia que tente dar conta desse Mito. Teologia que há de ser mais complexa do que a que trata da Santíssima Trindade. O mistério de um só Deus em três pessoas? Coisa do passado! Muito mais profundo e imponderável é o mistério de todas as mulheres numa só Deusa. Santíssima Infinitude.

Não sei dizer de qual Madonna gosto mais. A material girl me alegra, a queima-cruzes me provoca, a puta me excita, a mística me põe em êxtase, a democrata me empolga, a confessional me faz querer ser ela. Uma vez conquistado por ela, depois de ter contemplado seus olhos de medusa, impossível renegá-la.

Se tivesse de defini-la em uma palavra: ANÁRQUICA. Madonna triunfa do sistema, que põe de joelhos diante de si própria. Em seguida, ela quebra sua imagem de barro e escandaliza seus adoradores, para, então, oferecer a eles cópia ainda melhor de si. E o ciclo se cumpre. e o ciclo recomeça.

sábado, 7 de junho de 2008

Senhor, piedade dos silas malafaias!

Fanáticos religiosos causam ojeriza, raiva, revolta. Mas, na verdade, são dignos mesmo é de pena. São pessoas frustradas, fracas e infelizes. Foi a conclusão inevitável a que cheguei hoje pela manhã quando, sintonizando um canal de televisão, deparei com um pastor evangélico chamado Silas Malafaia. O reverendo esbravejava enfurecidamente (a redundância convém) contra o projeto de lei que pretende criminalizar a homofobia no Brasil e garantir alguns direitos a homossexuais. O pastor está indignado com o projeto, que, em sua (falta de) visão, vai tirar-lhe o direito de criticar a homossexualidade e privar-lhe de sua liberdade de expressão. Estava convocando os "cidadãos de bem" a acompanharem-no até Brasília, onde pretende protestar contra o projeto de lei. Parece que para o tal pastor criticar os homossexuais é a base de seu discurso, ponto fundamental de sua crença religiosa, um dos pilares de sua igreja. Cômico ao extremo.
Mas o reverendo Silas demonstra tanta infelicidade, tanta raiva em sua expressão, tanta rigidez em sua postura, que é impossível não sensibilizar-se com sua triste situação. Agarrou-se ferrenhamente a uma doutrina que lhe dá a sensação de segurança e realização pessoal que faltam em sua vida. Criticar os homossexuais e os que vivem o amor livre (ele classifica o sexo entre pessoas solteiras como "prostituição") é a conseqüência natural da prisão em que se confina seu pensamento. Pessoas livres, que não vivem de acordo com os padrões morais que ele impôs para si, são vistas por ele como uma ameaça: significam que é possível viver com liberdade, sem a bênção de "Nosso Senhor Jesus Cristo" e, mesmo assim, com felicidade e plenitude. Pobre Silas! Não vê que o mundo é maior do que o que alcançam seus olhos míopes!

"Vamos pedir piedade! Senhor, piedade! E um pouco de coragem!"

Dedico o vídeo a seguir a todos os silas malafaias que existem por aí. In Madonna we trust, pois só ela salva.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sobre romãs


Quando eu era pequeno havia uma árvore de romã (romãzeira?) na frente da minha casa. Todos os anos ela dava muitas frutas que consumíamos, meus irmãos e eu, com entusiasmo infantil. Não que fosse a fruta mais saborosa do mundo, mas a romã tem sua delicadeza que encanta. O mais bonito é que dá para ver claramente suas flores, vermelhas e chamativas, transformando-se em frutos, cheios de sementes igualmente vermelhas. Na verdade, é uma fruta esquisitinha: não tem polpa, e o que a gente degusta é o caldinho que há no interior das sementes.
Essas reflexões "romanescas" (com o perdão do trocadilho) foram motivadas pela passagem de Samhain, que celebrei com um rito que utiliza, entre outros elementos, dessa fruta como símbolo. E a romã é tradicionalmente associada à fecundidade, à paixão e ao amor. Segundo a Wikipedia, os gregos associavam-na à deusa Afrodite e consideravam-na afrodisíaca. Até na Bíblia ela aparece como símbolo de fartura para os hebreus. Dizem que a romã é boa pra curar dor de garganta. E sabe-se que é antioxidante, ajuda a previnir e até a tratar câncer, principalmente de próstata.
Pra mim é engraçado que a romã seja vendida por um preço tão elevado (pelo menos aqui na minha região. Ontem comprei uma unidade por R$2,95!) Na minha casa era algo tão comum ("era", porque aquela romãzeira não existe mais), quase banal...
Para finalizar, deixo-vos a letra de uma canção de Baby Consuelo que, coincidentemente, conheci ontem ao baixar o álbum "Krishna Baby", de 1984. A canção chama-se "Romã do Amor" e nela a cantora filosofa sobre a fruta, tal como fiz nesse post que inaugura a postagem de maio:

A palavra amor
É tão infinita
Que até ao contrário
Também significa
Eu estou falando
Da R-O-M-Ã
Que cura o cantor
Num passe de amor
Nas quebradas da vida
Minha voz te exalta
Nessa vida ribalta
Tua semente
Transparente só traz sabor
Tua casca vermelha e branca
Protege quem canta
E toda a garganta nesse mundo-esperança
Romã do Amor
Sou sua fã
Seu admirador
E por trás de ti
Pressinto em mim
A missão natureza
De uma fruta princesa
Que Deus abençoou


P.S: Descobri que a romã já tem seu próprio perfil no orkut, quem quiser conhecê-lo, clique AQUI.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Saindo do tempo

Hoje é véspera de Samhain no Hemisfério Sul, o sabbath em que o antigo povo pagão da Europa comemorava o fim do ciclo da Roda do Ano e a morte do Deus Cornífero, que vai renascer em Yule, no solstício de inverno. (É a festa que se popularizou como "Hallowen", comemorada em 31 de outubro no Hemisfério Norte.)
No período entre os dois sabbaths há um período chamado de "tempo fora do tempo". O véu entre os dois mundos rasga-se hoje, e os ancestrais mortos passeiam entre nós, e nós entre eles.
Amanhã celebrarei Samhain no seio da natureza, vendo o sol se pôr, sentindo o frio do inverno que se aproxima e queimando minha lista de desejos para o próximo ciclo. Quem quiser celebrar comigo está convidado... junto física ou espiritualmente...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Mabon - Equinócio De Outono


Hoje é o último dia do verão, dia do Equinócio de Outono (no Hemisfério Sul), em que dia e noite têm igual duração, mas a partir do qual as noites crescerão e os dias diminuirão. Na antiga religião de culto à Deusa Mãe e à Natureza, essa data corresponde ao fetival de Mabon, que comemora a abundância e a prosperidade, encerrando o período de colheitas. É um dia de gratidão e comunhão com a Natureza por sua generosidade.

Particularmente, eu sinto a energia dessas festividades que, de alguma forma, correm em minhas veias nos genes que me vieram de meus ancestrais europeus. Hoje, de forma até inconsciente, abasteci a geladeira de frutas e cerveja. Olhei para o céu e vi uma majestosa brincadeira entre o Sol e grossas nuvens, com efeitos de luz e cores muito interessantes. E foi então que lembrei do equinócio. Mais tarde vou celebrá-lo, assando um pão, oferecendo um pouco de cerveja a meus ancestrais, acendendo velas e incensos e tocando a terra com meus pés.

É preciso celebrar para estar vivo. Celebrar, para mim, é comungar com a Natureza.

sexta-feira, 14 de março de 2008

O sagrado e o profano

(Texto dedicado às pessoas que chegam a este blog através do Google, buscando pelas palavras-chave "sagrado e profano" ou semelhantes.)


O sagrado e o profano são conceitos de enorme importância social. A força que se encontra por detrás deles é capaz de definir padrões comportamentais aceitos, relegando outros à marginalidade. No entanto, ou justamente por isso, são noções extremamente flutuantes, variando de acordo com o tempo e o espaço.


Sagrado
:
do Lat. sacratu
adj.,
relativo aos ritos ou ao culto religioso;
que foi consagrado;
profundamente venerável;
puro;
santo;
a que se deve o maior respeito;
inviolável;
s. m.,
aquilo que é sagrado;
prov.,
adro da igreja;
o chão do cemitério.
do Lat. profanu <>
não pertencente à religião;
não sagrado;
leigo, secular;
mundano;
não iniciado em certos conhecimentos;
estranho a certos assuntos;
ignorante.


Se é certo que se tratam de dois universos opostos, também não se pode negar que um só é compreensível em relação ao outro. Afinal, como entender que algo é puro e santo, sem a noção do que é impuro e mundano?
Na definição de ambos os conceitos, o fator religioso ocupa papel central. É da crença religiosa, da relação com o sobrenatural e, em última instância, dos próprios deuses, que advém o caráter sagrado de certos atos, objetos, lugares e indivíduos. Por outro lado, é da oposição ao transcendental, da negação ou da afronta a ele, que provém a profanidade de outros atos, objetos, lugares e indivíduos.
Mas é sobretudo o aspecto social que interfere na formatação do sagrado e do profano no imaginário da coletividade. As relações de poder, o modo de produção e a distribuição dos bens materiais e culturais valem-se desses dois conceitos para obter para si próprios a legitimação, a aceitação e a perpetuação. Exemplo clássico disso é o caráter sacro atribuído a si próprias pelas antigas monarquias: enquanto representante de Deus, o rei era sagrado e inquestionável. Rebelar-se contra ele seria uma profanação.
Se em nossos dias o pensamento religiosos perde a força de persuasão e os conceitos de sagrado e profano já não falam com tanta força ao homem contemporâneo, fica a questão: que outros conceitos ocupam hoje seus lugares? Será a idéia de "científico" oposta à de "não-científico" a versão moderna do sagrado e do profano?

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Rastas

Matéria publicada na Revista Planeta, número 150, de Março de 1985

Para muitos, o falecido imperador etíope Hailé Selassié foi apenas mais um curioso exemplar entre os governantes que assolam os paises do Terceiro Mundo. Outros, porém, viram nele o messias, e em sua terra, a origem do cristianismo: são os rastas, da Jamaica, adeptos de uma singularíssima religião que se tornou internacionalmente conhecida a partir das músicas de nomes como Bob Marley.

Por Otávio Rodrigues

Negros. Enormes tranças em desalinho, escorrendo pelo corpo ou sob toucas de lã colorida. Na mão, provavelmente, um grosso cigarro de marijuana, e no prato, frutas, hortaliças e raízes. Os gestos são vagarosos, o olhar é sereno e o bom humor, uma constante. Cultuam a imagem do ex-imperador etíope Hailé Selassié, “o messias”. Clamam pela volta à África, de onde seus ancestrais foram cruelmente arrancados durante o período escravagista. A Bíblia, leitura diária, ilustra os cânticos ao lado de críticas ao sistema, “a Babilônia”, numa inebriante cadência dos tambores. Embora extremamente avessos a qualquer tipo de opressão e, por vezes, agressivos nessa situação, mantêm-se generosos e receptivos a todos indistintamente. Crêem na vitória do bem sobre o mal e na vida eterna, pregando e praticando a máxima “paz e amor”. Cenário: Jamaica; cores: vermelho, amarelo e verde. São os rastas. (1)
O movimento (2) rastafari surgiu com a coroação de Hailé Selassié, em 1930. Através da música popular jamaicana, o reggae, ganhou notoriedade internacional na década de 70 e arrebanhou seguidores em todo o mundo. Aquilo que outrora era “a vergonha da Jamaica” – indivíduos de “péssima aparência”, hábitos “criminosos” – tornou-se repentinamente um atrativo para visitantes, que fazem do turismo a segunda maior fonte de renda do país. Isso, no entanto, não os poupa dos constantes problemas com a polícia, que os toma por vadios e drogados. O certo é que o rastafari possui elementos de grande interesse. Não obstante o etnocentrismo de alguns observadores, que os tacham de loucos e alienados, os rastas conquistaram uma identidade, dentro e fora da Jamaica. Seus anseios extrapolam a esfera espiritual e ganham, paulatinamente, força social e política.
É corrente a afirmativa de que o sistema escravagista implantado na Jamaica foi um dos mais cruéis em todos os tempos. Os primeiros escravos chegaram à ilha em 1509; eram primordialmente trazidos para o trabalho nas plantações de cana-de-açúcar, que sustentaram a economia européia nos séculos XVII e XVIII. Capturados na costa da Guiné, Congo, Angola e Sudão, pertenciam a grupos tribais importantes, como os coromantees, achantis, mandingas, fantis, dagombas, mamprusis e talenses. Isolados entre si na África, sem intercâmbios, fundiram suas tradições e culturas no Caribe, descobrindo-se como um só povo, partilhando dos mesmos sofrimentos. (3) Os coromantees possuíam tradição guerreira, que os fazia rebeldes e violentos; foram a espinha dorsal dos maroons, escravos fugitivos e de atribuições míticas, que se concentraram no interior da ilha, onde estão até hoje. Arredios, não se misturam à civilização jamaicana. Garantidos por lei, seus territórios preservam as tradições tribais africanas de seus primeiros. É cabível afirmar que os núcleos maroons são uma espécie de quilombos que deram certo. Oliver Cromwell, a serviço da Coroa Britânica, conquistou a ilha em 1655. Suas incursões ao Caribe garantiram à Inglaterra o domínio de importantes colônias até então sob jugo espanhol.



O imperador etíope Hailé Selassié, "Senhor dos senhores, Rei dos reis!

Os homens de coração negro

A Jamaica é um caso singular no que diz respeito à tradição e folclore. Ao contrário de outros sistemas escravagistas, os negros não eram forçados a adotar a cultura européia. Os ingleses possuíam objetivos unicamente mercantilistas, não se importando com qualquer tipo de catequese ou ensinamento. Os escravos, por sua vez, erigiram uma cultura toda própria, fruto da miscigenação tribal a que foram submetidos. Os trabalhos nos campos eram ritmados com canções africanas, do tipo chamada-resposta, que, segundo os ingleses, aumentavam a produtividade.
As primeiras práticas religiosas foram o myalism e o obeah, ambos herança africana, misturando exarcebado culto aos mortos, voduísmo e curandeirismo. Outras expressões foram a kumina e o junkunnu, que vingaram até hoje. A primeira, tida como um dos mais antigos cultos afro-caribenhos, está bastante ligada ao myialism. Suas funções incluem a possessão espiritual, o bater frenético de palmas e o ritmo dos tambores. O junkunnu é a mais tradicional festividade jamaicana, com muita dança, música, teatralização e paródia.
Arraigados em suas tradições e ritmos, os negros jamaicanos atravessaram quase três séculos imunes à cultura e religião brancas. Um lei de 1774, entretanto, levou várias práticas de seu folclore à condição underground. Os patrões conscientizavam-se do perigo em permitir vários escravos unidos, em comunicação constante. Era o fim de um ciclo.
Com o confinamento das práticas religiosas de descendência estritamente africana, criou-se um vazio espiritual na Jamaica. As cerimônias da igreja tradicional eram frias, nada diziam aos escravos. Em 1784, Geoge Liele, afro-americano e ex-escravo, fundou a Igreja Batista na Jamaica. Gradativamente, atraídos pelo discurso acessível dos novos sacerdotes, os negros tomaram contato com a Bíblia. Mais: descobriram diversas similaridades entre a história dos judeus bíblicos e a deles própria; a mesma condição de expatriados, as mesmas desigualdades, a espera do retorno à pátria, um salvador iminente e assim por diante.


Etiópia: a origem da civilização cristã

George Liele já possuía algum conhecimento sobre o etiopianismo, teoria embasada na Bíblia que diz serem a Etiópia e a raça negra a protocélula da civilização cristã. As diversas traduções disponíveis da Bíblia e as muitas interpretações a que se permitem tornam a questão um poço de dúvidas. A cada conquista árabe ou européia na antiga África mudavam-se os nomes dos territórios. Assim, as origens da civilização etíope confundem-se no passado com a de Kush ou Méroe, Núbia e até do Egito. Segundo os gregos, o antigo Egito era habitado pelas mesmas tribos da antiga Etiópia, indivíduos de pele negra e cabelos como lã (4).
A Igreja Batista tornou-se um canal de reclamos para os escravos. Os pastores batistas exortavam os negros à resistência e foram os primeiros a clamar em favor da descolonização e citar a frase, hoje enciclopédica, “África para os africanos”. O sincretismo entre as imagens e valores bíblicos e afro-jamaicanos foi uma conseqüência lógica nesse processo.
Mesmo após a abolição da escravatura, em 1838, a insatisfação na ilha era generalizada. O apego à fé e às lideranças político-religiosas foi responsável por uma série de rebeliões. O sincretismo catalizou-se em 1860 com o revivalismo, quando a religiosidade e o espiritualismo foram levados a extremos, num episódio sem precedentes na história da Jamaica.
No começo deste século, amparados num movimento nacionalista, alguns pregadores lançaram mão de sua influência e retórica para mesclar elementos bíblicos e da teoria etiopanista com reivindicações de cunho social e político. O mais destacado de todos eles era o jovem Marcus Mosiah Garvey. Após liderar movimentos grevistas e revelar um enorme poder de comunicação junto às massas, garvey fundou a UNIA – Universal Negro Improvement Association (Associação Universal para o progresso Negro) – uma das primeiras tentativas de peso realizadas para a garantia dos direitos dos negros no mundo ocidental. Para que se tenha uma idéia, somente entre 1914 (data da sua instauração) e 1920, a UNIA chegou a agregar quase seis milhões de membros, espalhados por todo o mundo.

Ascensão de Selassié

Em 1916, Marcus Garvey viajou para os Estados Unidos com o propósito de apresentar propósitos educacionais para Washington. Terminou instalando-se nesse país e, sempre estimulando o retorno dos negros à África, fundou a Black Star Line (Companhia Estrela Negra) de navegação para garantir o comércio do novo mundo negro e simbolizar a repatriação. Durante os anos 20, ganhou tal eminência junto às comunidades negras dos EUA que o governo daquele país, acuado pelas constantes insinuações do jornal da UNIA, Negro World, expulsou-o em 1928.
“Olhem para a África. Quando um rei negro for coroado, a redenção estará próxima.” A afirmação de Garvey em seu retorno à Jamaica foi tomada como uma profecia. A vinda do messias haveria de pôr fim aos sofrimentos e amarguras daquele povo, crente de ser a extensão (in)fausta dos judeus das escrituras. Em 1930, Ras Tafari Makonnen foi coroado imperador da Etiópia. Adotou o nome de Hailé Selassié I e adicionou os títulos de Rei dos reis, Senhor dos senhores, Leão Conquistador e Tribo de Judá, Eleito de Deus e Luz do Mundo. Seguidores de Garvey acorreram à Bíblia e, entre outras passagens, encontraram em Apocalipse 19, 16: “Sobre o manto e sobre a coxa está escrito seu nome – Rei dos reis, Senhor dos senhores”, e Apocalipse 5,5: “Mas um dos anciãos me disse: Não chore, eis que o Leão da Tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os sete selos”, que descreviam o messias em seu retorno. Para alguns pesquisadores, Selassié era o 225º representante da linha salomônica, advinda da controversa união do rei Salomão com a rainha de Sabá. A analogia, pois, foi rápida e contundente: Hailé Selassié é o messias. Os acontecimentos históricos que se sucederam na Etiópia passaram a ser relacionados com as escrituras, consolidando a suposta divindade do imperador. A invasão do país pelas tropas de Mussolini e a heróica resistência do povo etíope comandado por Selassié, por exemplo, encontram-se registradas em Apocalipse 19, 19: “Vi a besta e os reis da terra com os exércitos reunidos para fazerem guerra àquele que montava o cavalo e a seu exército”. A trágica epopéia dos negros jamaicanos, os sentimentos nacionalistas, o etiopanismo, o sincretismo afro-bíblico, os clamores pela volta à África ganhavam, enfim, um direcionamento, um objeto de adoração e esperança. O nome batismal do imperador, Ras Tafari, rotulou a fé que lhe era dedicada. O movimento explodiu. Durante uma conturbada visita à Jamaica em 1966, Hailé Selassié negou ser o salvador (Jah, para os rastas), mas não foi ouvido.
O rastafari foi inescrupulosamente manipulado por falsos líderes ao longo dos anos 30, 40 e 50. os projetos econômicos e educacionais instituídos por Marcus Garvey na década de 20 soçobraram juntamente com os navios imprestáveis comprados de armadores brancos a preços de mercado negro (5). O profeta, aliás, morreu miseravelmente em Londres, no ano de 1940. As aziagas situações em que se viram atirados os rastas, a violência insuflada por interesses pessoais de alguns e a inadvertida relação com os rude boys (6) na década de 60, ao contrário do que seria presumível, fortaleceram os ideais legitimamente rastas, outorgando aos seguidores contemporâneos uma doutrina mais realista e urbana, sem abrir mão de seus preceitos dogmáticos.

Os caminhos da redenção

Os rastas somam hoje 10% da população jamaicana, estimada em 2,5 milhões de habitantes. Malgrado a morte de Selassié, em 1975, adoram-no ainda, como um ente de vida perene. Estão espalhados em todo o país, invariavelmente em guetos onde grassam a miséria e práticas de subsistência. Afora algumas facções misantropas, integram-se à sociedade como músicos, soldadores, motoristas, pescadores, artesãos e agricultores. As crianças, com raríssimas exceções, não vão à escola, “centros de lavagem cerebral e maus ensinamentos”. Seja por hábitos, palavras ou aparência, os rastas são facilmente identificáveis.
O rastafari é pró-Cristo e anti-papa. Reconhece a Igreja Católica Romana, mas vê no papa a personificação do Satanás, por liderar aqueles que fazem das verdades da Bíblia recurso de dominação de seus seguidores. O totalitarismo das grandes potências e as muitas formas de exploração do homem são, para os rastas, garantidos pela Igreja e seus falsos pregadores; a destruição disso tudo está próxima, e somente os que seguem os ensinamentos da Bíblia, os justos dos justos, serão poupados. A Bíblia, pois, é companheira inseparável dos rastas. Guiando e iluminando os caminhos que hão de leva-los à redenção.
A linguagem rasta possui particularidades que vão desde a descaracterização do inglês, a língua oficial jamaicana, até o encampamento de termos do amárico etíope e de origem crioula. A sabedoria discursiva resume-se no conceito de word (razão), sound (fala) e power (coração). Aos não iniciados, o patoá é incompreensível. A palavra I (literalmente, “eu”) concentra inúmeros predicados de interação divina e, conseqüentemente, desmedidas utilizações. Tudo que converge no sagrado inicia-se com I. Daí termos Itation para meditation (meditação), Ivine para divine (divino) e assim por diante. Nos lábios dos rastas o inglês transforma-se. Brother, cuja pronúncia aproximada é “broder”, soa “broda”, e até o famigerado “th” de the, thing ou them, de inexorável dificuldade para a pronúncia latina, simplifica-se no som cru e direto do “t” ou “d”, criando “ting” para “thing”, “dem” para “them”, etc.



Através de suas canções, Bob marley popularizou os rastas no mundo.



Os costumes dos rastas

Os hábitos alimentares dos rastas são basicamente vegetarianos. A justificativa, como sempre, é bíblica: “ e a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todos os seres vivos que rastejam sobre a terra, eu lhes dou os vegetais por alimento” (Gênesis 1, 30).
Abominando, além da carne, alimentos como ovo, queijo, pães, e massas de farinha branca, os rastas mantêm-se com uma variada gama de frutas e hortaliças encontradas na Jamaica. Arroz, feijão, ervilha, mandioca, coco, banana, mamão, abacaxi, laranja, ackee (a fruta típica da ilha), pimenta, batata e uma infinidade de sucos e extratos compõem a mesa do rasta no dia-a-dia. A bebida alcoólica é evitada, bem como os refrigerantes e enlatados de qualquer tipo. Plantar o que come, quando possível, é o ideal.
A alimentação rasta é comumente chamada Ital, termo oriundo de natural e vital. Na urbana Kingston, por exemplo, onde as dificuldades em se encontrar a comida Ital se pronunciam, existem restaurantes especializados em prepará-la, normalmente dirigidos por rastas. Os preços são acessíveis e acabam atraindo todos aqueles que precisam se alimentar bem sem gastar muito.
A Bíblia diz, em Números 6,5: “Enquanto durar o voto de nazireado a navalha não passará sobre a cabeça; estará consagrado enquanto não se completarem os dias que consagrou ao Senhor, e deixará crescer livremente o cabelo”. Por isso, a grande maioria dos rastas jamais corta o cabelo e a barba, que se tornam, ainda, “antenas” de vibrações divinas.
As dreadlocks (literalmente, “tranças horrendas”) surgiram por volta de 1935, inspiradas em fotos de guerreiros massais e somalis da África Oriental. A idéia corrente de que sejam sujas, nunca lavadas, não é verdadeira. Uma espécie de touca de lã, a tam, guarnece a dreadlocks do sol e do vento e é, quase sempre, tecida nas cores etíopes: vermelha, amarela e verde. Se nas ruas de Kingston um rasta for insistentemente fitado por um turista curioso, certamente arrancará de um só golpe a tam, expondo as dreadlocks num ato de afirmação de sua negritude e crença.
Os próprios rastas costumam recitar: “nem todos os rastas usam dreadlocks, nem todos que usam são rastas”. Sem dúvida, a popularização do uso das dreadlocks, na Jamaica e no mundo, deu margem às más interpretações sobre os rastas, num processo errôneo de correlacionamento. Mais importante que as dreadlocks, afirmam, é ser rasta no coração.
De todos os hábitos rastas, o mais problemático, o mais suscetível a implicações sociais e até legais é o consumo da marijuana, conhecida popularmente como ganja (7), a erva sagrada. Fumar ganja é um sacramento, comparável à hóstia ou ao incenso na Igreja cristã. Em Gênesis 1, 29, encontra-se: “Deus disse: Eis que vos dou toda a erva de semente , que existe sobre toda a face da terra, e toda a árvore que produz fruto com semente, para vos servir de alimento.”, o que para eles é a aclamação suprema do ato. Sob o efeito entorpecente da ganja, os rastas dizem manter íntima relação com divindades, unidade com o mundo e raciocínio lógico. É indispensável durante meditações, cânticos e orações. Na forma de chá, é utilizada para relaxar crianças pequenas que choram muito ou se mostram tensas. Inúmeros pratos da cozinhas fazem uso da erva, também usada contra males do corpo, como infecções, febres e dores de cabeça.
Não se sabe quando a marijuana chegou à ilha ou até se já existia antes do descobrimento, mas é certo que ela se encontra na ilegalidade desde 1913. Os problemas com a polícia foram sempre marcantes, mas, atualmente, existe uma relativa conivência para com o porte e consumo em pequenas quantidades. Ainda assim, flagrar um rasta com a erva é sempre um bom motivo para os policiais lhe cobrirem de cusparadas e impropérios (8). O rastafari encontra-se intrinsecamente relacionado com a música. Em Salmos 18, 50 lê-se: “Por isso, Senhor, te darei graças entre as nações, entoando hinos a teu nome”.
Através dos anos e das progressivas evoluções dos ritmos jamaicanos, a mensagem rasta foi cantada na lida diária, nas praias, mas clareiras escondidas das Montanhas Azuis (no interior da ilha), nas favelas e palcos mambembes. A música é hoje o mais importante veículo de pregação rastafari e reivindicações sociais. Basta citar o reggae, mundialmente conhecido, para se ter uma idéia do casamento entre ritmo, melodia e doutrina fomentados pelos rastas. A base de tudo são os tambores burru, tradição rítmica africana difundida nos tempos da escravidão e adotada pelos rastas como nyahbinghi drums.
Os rastas reúnem-se constantemente para cantar, para louvar Jah, com tambores e ganja na mão. O ritual é conhecido como grounation e ilustra todas as datas importantes do calendário rasta. Dificilmente a presença de um estranho é tolerada nessas ocasiões, tal a importância e mística que lhe são atribuídas.
O rastafari conquistou espaços na sociedade jamaicana inimagináveis há alguns anos. Embora muitos recusem-se a votar, nenhuma campanha política prescinde da inclusão de seus problemas, tal é a força do movimento junto à opinião pública do país. Está gravada na história da Jamaica a imagem do primeiro-ministro branco, Edward Seaga, unificando os brados de “Jah, rastafari!”, durante os funerais de Bob Marley, um rasta que levou, através de sua música, a realidade jamaicana às primeiras páginas dos jornais em todo o mundo.
É inegável que algumas aspirações rastas, como a volta à África, constituem hoje apenas simbologia doutrinária. O apartheid na África do Sul, a conturbada situação política no Zimbabwe e a fome na Etiópia são, para eles, exemplos da espoliação exercida no continente pela Babilônia. Além de impraticável, o êxodo seria insensato, crêem.
Aninhados sob o sol enérgico da Jamaica, esperam tranqüilos a chegada do Apocalipse. Têm certeza de que sobreviverão. Seu canto mavioso e as palavras de sabedoria, como na lenda milenar do rouxinol, mantêm vivo o imperador e distantes os fantasmas das más ações que cometeu.




Notas

(1) Rastafarianos. A utilização de rastas, tão-somente, é corrente no inglês e parece-me mais adequada. Da mesma forma, prefere-se rastafari ao termo rastafarismo ou até rastafarianismo. Os rastas detestam "ismos".
(2) Os próprios rastas aconselham o uso dos termos "movimento", "doutrina", "fé", mas nunca religião.
(3) Barret, Leovard. Soul Force. Nova York, Doubleday, 1974, p.77
(4) Whitney, Malika Lee & Hussey, Dermott. Bob marley, Reggae King of the World. Nova York. E,P. Dutton, 1984, p.114
(5) Ramchand, Kenneth. O sonho africano de Marcus Garvey", in O Correio da Unesco. rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1982, p.42
(6) Responsáveis por uma onda de violência e vandalismo ocorrida na Jamaica durante os anos 60 e parte dos 70. Oriundos do campo, chegavam à capital, Kingston, não conseguiam emprego e se marginalizavam. Alguns adotaram as tranças rastas, daí ter surgido muita confusão.
(7) É o termo mais usado. São ainda de uso corrente os nomes sinsemilla, herb, hola herb, lamb's bread, Ishence, kaya, weed of wisdon e kings bread. A quantidade de nomes equipara-se à do produto.
(8) Vez por outra, um músico é preso por causa da ganja, Assim, a polícia espera fazer reconhecido seu trabalho. Ficaram famosas as prisões de Bunny Wailer, Peter Tosh, Toots Hibbert e, há pouco, Gregory Isaacs.


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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"A mim o fizestes"


No Evangelho de Mateus (capítulo 25, do versículo 40 em diante) há uma passagem que nunca deixa de surpreender-me. Trata-se de uma pregação de Jesus a respeito do Juízo Final. Segundo essa passagem, o único critério que define a salvação ou a condenação de cada um é o fato de ter sido ou não uma pessoa "caridosa", ter ajudado ou não o próximo necessitado. Segundo Cristo, é nos necessitados que Ele pode ser encontrado: quem ampara um necessitado ampara a Ele próprio, quem nega amparo é a Ele que desampara.
O que há de surpreendente nessa passagem é que estamos diante de um discurso completamente anti-religioso. O que Jesus diz ali é : não interessa sua religião, não interessa se você reza ou não, não interessa se você crê em Deus ou não, não interessa quantas doações você faz à sua igreja. Só interessa se você deu de comer a quem tinha fome, de beber a quem tinha sede, se vestiu quem estava nu e visitou quem estava enfermo. Se fez isso, garantiu o Reino dos Céus; se não fez, comprou sua passagem para o inferno.
Impossível, diante de um ensinamento tão simples e direto, não recordar das guerras religiosas "em nome de Jesus", da caça às bruxas "em nome de Jesus", da exploração do sofrimento alheio feita por igrejas "em nome de Jesus", dos preconceitos de todos os tipos ensinados "em nome de Jesus"...
Em sua última turnê, a "Confessions Tour", Madonna apresentou uma performance que provocou polêmica: interpretou a canção "Live to tell" simulando estar pregada numa cruz. Os religiosos, ao saberem de tal performance, acusaram-na de ofensa a símbolos religiosos. O que eles não viram é que, durante a performance, esse texto do Evangelho de Mateus era projetado nos telões ao fundo, juntamente com imagens de crianças africanas em estado de miséria. No final, Madonna desce da cruz, enquanto os telões mostram labaredas de fogo. Ela deita-se no chão com os braços em cruz e ouve-se o soar de um sino. É de arrepiar: enquanto Madonna demonstra ter captado plenamente o ensinamento cristão, os religiosos demonstram desconhecê-lo totalmente...